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Uma carta desde o monte

Hoje decidi fazer uma pausa ao final de uma semana exaustiva.

Deixei de lado o preenchimento de planos de trabalho, a revisão de orçamentos, relatórios e comitês, para colocar no papel alguns dos pensamentos que me acompanharam nos últimos dias.

Há três anos me propuseram operar Bancos de Habitat, formular planos de manejo e transformar em realidade aquilo que normalmente fica apenas registrado em documentos. Comecei com um banco cujo nome exigia fôlego para ser dito inteiro: Banco de Habitat Floresta Seca Tropical do Cânion do Rio Cauca. Então, por praticidade, passamos a chamá-lo simplesmente de BH Liborina.

Naquele momento era o menor banco, e com ele enfrentei um dos meus primeiros desafios: propor uma metodologia para formular planos de manejo. Fui conhecer o BH Liborina no dia do meu aniversário, com um mapa no celular e acompanhada de Menacho, a pessoa que passou a vida cuidando dessas terras. Entramos pela parte mais alta do banco — aquela que faz suar logo de início —, mas que oferece uma vista do Cânion do Rio Cauca que faz tudo valer a pena.

Quando chegamos ao topo, parei por um momento para contemplar. Lembrei da história daquele território e de tudo o que o rio Cauca carrega, não só em termos biológicos, mas também sociais: a história de violência que o marcou. Anos atrás, estive em um cenário semelhante, acompanhada de um amigo e colega que, ao ver a beleza do cânion, me disse:

“Olha que beleza, é muito fácil estar bem aqui.”

Quando me veio essa lembrança nesta semana, foi difícil compreender sua frase, porque hoje esse mesmo amigo faz parte da lista de desaparecidos do país, depois de ter suado por anos nas encostas do Cânion do Cauca.

Camilo Peláez – Engenheiro florestal desaparecido.

Apesar da dor que é dimensionar essas realidades, o BH Liborina representou para mim um dos meus primeiros grandes desafios na Terrasos. Alejandra Cárdenas, Líder de Estruturação de Bancos de Habitat, dizia que havia muito “peladero” — áreas áridas e degradadas. Anos depois, cheguei lá com Juan David Rodríguez, o guarda florestal do Banco de Habitat do Meta, e ele me disse:

“Aqui a gente sua até um grito.”

Mesmo sendo um dos menores bancos, consegui colocar no papel o imaginário de um pequeno laboratório.

Julián Durango, filho de Menacho, foi o guarda florestal que começou comigo a percorrer aquelas encostas. Sentávamos nos mirantes, e eu perguntava:

“Você consegue imaginar o dia em que tudo isso será mata?”

Ele sempre sorria, porque até para ele era difícil imaginar. Sua infância havia se passado em pastagens.

Entre uma conversa e outra, me contava seu medo das cobras — e sua crença de que algumas “se misturavam” com outras espécies. Eu explicava que isso não era possível, mas ele não se convencia muito.

Um dia, pelo riacho Canalón Blanco, encontramos uma cobra caçadora (não venenosa). Fiquei muito feliz. Me aproximei para tirar uma foto. Julián, surpreso com a minha tranquilidade, se animou a chegar perto e entender por que ela não era perigosa. Algum tempo depois, o vi em uma integração de guardas florestais no BHM, segurando uma cobra caçadora enquanto ouvia Jorge, um dos vaqueiros — grande amante das serpentes —, que lidera processos de sensibilização.

Vê-lo com aquele sorriso e a empolgação de me dizer:

“Cris, é toda fria”, valeu tudo.

Começamos então o viveiro, com o grande desafio de propagar material vegetal. Aprendi sobre unidades de medida com um mestre de obras, só para que me entendessem na loja de ferragens da cidade. Assim começamos a construir.

Depois saí com Julián para buscar sementes como dois loucos. Havia uma grande colheita de algarroba, um fruto famoso pelo seu cheiro — digamos assim — peculiar. Nesse dia, caminhamos pelo Canalón Blanco, carregando sacos pesados e cheirando a “chulé”, parando de vez em quando porque o peso era demais.

Depois Julián perguntou:

“Cris, o que fazemos com esse fedor todo?”

E começamos a martelar. Contei a ele que a farinha do fruto era muito nutritiva, um aglutinante natural, ideal até para fazer sucos. Eu, por minha parte, preparei um bolo — que ficou delicioso, embora Wilson, hoje Diretor de Operações, não tenha acreditado porque eu não lhe dei um pedaço.

Nesta semana, olhando fotos antigas, senti uma enorme satisfação. É gratificante ver os avanços, as curvas de aprendizado, passo a passo. Começamos com uma pequena área, e hoje Gustavo Espinel, Julián e Álvaro (o viveirista) posicionam o viveiro como um dos melhores da região, segundo o pessoal de controle de obras da ISA.

Sempre sonhei com o momento das plantações lá. Imaginava as mulas desfilando pelas encostas do cânion — talvez por uma paixão herdada do meu pai, que foi tropeiro a vida toda e me deixou uma profunda admiração pelas mulas e seu papel na história de Antioquia.

E então começamos a plantar, tentando seguir os registros de chuva.

Hoje, conversando com Gustavo Espinel, Profissional de Operações BH – Territorial Andes, chegamos a uma foto que me deu muita alegria. Quem esteve comigo em campo sabe a profunda admiração que sinto pelas plantas — especialmente por aquele mato que quase ninguém valoriza. Para mim, são as mais fortes: a representação da resistência, especialmente em uma floresta seca tropical.

A imagem mostrava o avanço da sucessão natural em um dos polígonos de plantio deste ano — justamente em uma daquelas encostas onde o llanero havia dito que “se sua até um grito”.

E isso, na verdade, me arrancou um grande sorriso.

Por tudo isso, tirei um tempo para fazer uma pausa, para recordar com carinho e alegria. Também para agradecer. Porque por trás de tudo isso há muita gente se esforçando no território — e também apoios fundamentais da equipe da Terrasos que nos permitem continuar avançando.

A todos, obrigada. Por cada grão de areia em cada processo.
Desejo, de coração, muito monte, sempre.

Com carinho, em meio à correria…
María Cristina Vargas